
Com o mote “É na luta que a gente se encontra!”, seminário em Goiânia reuniu base e direção para resgatar os 40 anos de história da entidade e traçar estratégias de resistência diante de um Congresso mais conservador.
Cerca de 40 pessoas, entre integrantes da direção, base e assessoria do SINTFESP-GO/TO, reuniram-se durante todo o dia 28 de outubro, no Crystal Plaza Hotel, em Goiânia, para o seminário em comemoração ao Dia das Servidoras e dos Servidores Públicos. Sob o tema “É na luta que a gente se encontra!”, o evento promoveu a integração da categoria e o planejamento das próximas ações institucionais e de mobilização social.
O miniauditório foi decorado com uma instalação artística confeccionada a partir de tecidos, livros, cartazes e panfletos históricos, estampando palavras-chave como Memória, Trabalho, SUS, Democracia e Resistência. Logo na abertura, após o café da manhã, a psicóloga e educadora popular Luana Reis conduziu uma mística de acolhimento. O grupo entoou a canção “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, embalado pelo clima de esperança trazido pela reeleição presidencial ocorrida no último dia 25 de outubro, vista como um passo decisivo para o fortalecimento democrático e a soberania nacional.
Cenário político e governabilidade em debate
A primeira mesa de discussões abordou as perspectivas políticas para o próximo período. Participaram Luzinéia Vieira dos Santos, presidenta do Sindsaúde Goiás e representante da CNTSS; Grete Tirloni, diretora do SINTFESP-GO/TO e representante da Fenasps; e Terezinha de Jesus Aguiar, do SINTFESP-GO/TO, da CUT-GO e da CNTSS.
A tônica do debate girou em torno do paradoxo das urnas: ao mesmo tempo que as discussões do Executivo buscam assegurar compromissos históricos com a classe trabalhadora, a composição do Parlamento impõe debates complexos sobre a governabilidade.
Seguridade Social, orçamento público e direitos dos servidores
Em sua intervenção, Luzinéia Vieira dos Santos detalhou os desafios históricos debatidos pelas instâncias sindicais em torno do tripé da Seguridade Social — Saúde, Previdência e Assistência Social —, conquistado na Constituição de 1988.
Ela resgatou pautas fundamentais aprovadas nos cadernos de teses da confederação, como a revogação do teto de gastos da EC 95, para estancar perdas estimadas em R$ 400 bilhões para o SUS; a taxação dos super-ricos; e a derrubada de propostas de reforma administrativa que ameacem a estabilidade funcional.
Luzinéia enfatizou que a atuação intersindical contemporânea deve ir além das pautas corporativas e salariais, concentrando-se estrategicamente na disputa pelo orçamento e pelo fundo público. Também destacou a necessidade de atuar ativamente no combate às terceirizações e na defesa de jornadas dignas, como a consolidação do piso e das 30 horas para a Enfermagem.
Precarização do trabalho e desafios do INSS
Representando a Fenasps, a diretora do SINTFESP-GO/TO Grete Tirloni apresentou uma análise sobre a importância das políticas públicas e a necessidade de resistência permanente.
Grete enfatizou que a universalidade do SUS e da Previdência Social representa uma ameaça direta ao modelo neoliberal, alertando que a ausência de um serviço público estruturado inviabiliza direitos sociais básicos. Como exemplo da fragilidade das terceirizações e das contratações sem estabilidade, citou o caso recente de Goiânia, onde a gestão do prefeito eleito Sandro Mabel promoveu a dispensa massiva de médicos não concursados.
A dirigente também expôs a grave crise interna do INSS, que, desde 2015, perdeu mais da metade de sua força de trabalho sem a devida recomposição dos quadros.
Grete manifestou forte oposição ao Concurso Nacional Unificado, o chamado “concursão”, comparando os mecanismos de mobilidade transversal de servidores entre diferentes órgãos a práticas adotadas durante a ditadura militar e no governo de Fernando Henrique Cardoso, na década de 1990. Segundo ela, esse modelo serviu para esvaziar a autarquia, uma vez que quase a totalidade dos aprovados migrou para outros setores após o estágio inicial.
A diretora pontuou que o INSS Digital tem sido utilizado como laboratório para a Reforma Administrativa e lembrou que o SINTFESP-GO/TO debate pioneiramente os impactos do teletrabalho desde o projeto-piloto na Agência Goiânia Oeste.
Para Grete, os atuais programas de gestão e desempenho transferem a responsabilidade institucional para as costas do trabalhador, resultando em adoecimento mental e cortes arbitrários de adicionais de insalubridade.
Ao relacionar a precarização laboral ao cenário macroeconômico, Grete criticou a composição de um Congresso dominado pelas bancadas do agronegócio e do sistema financeiro, incluindo fintechs e bancos, que, segundo sua avaliação, legisla para manter juros altos e alimentar o esquema de amortização da dívida pública em detrimento das causas populares.
Ao concluir sua intervenção, defendeu pautas urgentes, como a jornada de 30 horas para todos, o fim da escala 6x1, o término das emendas secretas e o combate firme à tentativa de desvinculação das aposentadorias em relação ao salário-mínimo. Para ela, a eleição presidencial abriu um canal histórico para que esses problemas sejam debatidos. “Precisamos estar permanentemente mobilizados”, ressaltou.
Congresso Nacional: correlação de forças e mobilização social
Convidado para analisar esse panorama, Neuriberg Dias do Rêgo, diretor de documentação do DIAP, apresentou as perspectivas para o cenário político nacional. Para o palestrante, o desfecho do processo eleitoral reafirma que qualquer liderança disposta a conduzir o país precisa demonstrar compromisso inabalável com a democracia, a soberania nacional e o respeito à diversidade do povo brasileiro.
O representante do DIAP apresentou dados sobre a correlação de forças no Congresso que toma posse em 2027. Destacou que a direita e a extrema-direita expandiram suas bancadas, com o PL isolado como a maior força na Câmara dos Deputados, com 121 deputados, e no Senado, com 28 senadores.
Segundo a análise do DIAP, o governo terá um apoio consistente reduzido — apenas 124 deputados e 16 senadores — e dependerá de uma articulação ampla e complexa com parlamentares “condicionados” para conseguir barrar contrarreformas, como a Reforma Administrativa (PEC 32).
Para Neuriberg, é fundamental que a sociedade civil e as bases sindicais permaneçam fortemente mobilizadas, ocupando as ruas e as redes sociais para pressionar o Congresso em defesa das causas populares.
Saúde do trabalhador e o papel intersindical
Dando sequência ao debate sobre os caminhos da organização coletiva, a técnica e pesquisadora do DIESAT Josilene Sales apresentou a evolução conceitual das práticas de saúde.
Ela abordou a transição histórica da antiga “Medicina do Trabalho”, focada no tratamento hospitalar no século XIX, e da “Saúde Ocupacional”, voltada à dimensão técnica e ambiental no pós-guerra, para o conceito moderno de “Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora”, consolidado no Brasil a partir dos anos 1980.
Nesse modelo, a classe trabalhadora deixa de ser mero objeto de estudo e assume o papel de sujeito político e social na promoção e na defesa de sua própria saúde.
Acidentes de trabalho e cumprimento da NR-1
Para demonstrar a urgência dessa atuação territorial, a pesquisadora apresentou dados estatísticos de acidentes de trabalho extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Ministério da Saúde.
O levantamento demonstrou que Goiás lidera de forma isolada as notificações na região Centro-Oeste, com 88.863 registros masculinos e 21.747 femininos, além de apresentar números expressivos de transtornos mentais relacionados ao trabalho.
Josilene concluiu destacando o papel fiscalizador e propositivo que o movimento sindical deve exercer na cobrança pelo cumprimento da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), garantindo que a percepção real de risco vivenciada pelos trabalhadores conste obrigatoriamente no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das instituições.
Para o DIESAT, o trabalho digno é um direito humano, e a luta do movimento sindical precisa ser permanente em defesa de uma sociedade que não adoeça nem morra em decorrência do trabalho.
Quatro décadas de história e prazos jurídicos cruciais
A tarde do seminário foi marcada pelo resgate histórico conduzido pela diretora do SINTFESP-GO/TO, Terezinha de Jesus Aguiar, na palestra “SINTFESP: 40 anos de lutas, greves e conquistas”.
Apoiada em uma detalhada linha do tempo, Terezinha rememorou as raízes da organização, iniciada em 1953 com a criação do Clube dos Inapiários de Goiás (CIG), passando pela transformação em Associação dos Servidores da Previdência Social (ASSEPS) em 1971, até o divisor de águas em 1988, quando a nova Constituição Federal assegurou o direito à sindicalização e consolidou o nascimento do sindicato.
A robustez e o espírito de resistência da categoria foram traduzidos por ela em dados estatísticos oficiais acumulados em quatro décadas: a trajetória coletiva registra 24 greves históricas e um total de 1.406 dias de paralisação em defesa dos servidores federais da Saúde e da Previdência.
Ao traçar um paralelo entre os desafios de cada época, a dirigente relembrou o enfrentamento ao arrocho salarial na redemocratização dos anos 1980, a resistência ao neoliberalismo e a defesa do Regime Jurídico Único (RJU) nos anos 1990, a fragmentação da base por meio de gratificações de desempenho nos anos 2000 e a marcante greve de 90 dias em 2015. Ao desaguar o balanço histórico nos dias atuais, Terezinha destacou as intensas mobilizações da década de 2020, como as greves de 2022 (69 dias) e de 2024 (114 dias), além de debater as recentes reestruturações funcionais introduzidas pela Lei nº 15.367 de março de 2026.
Concluindo sua exposição, ela conclamou a base a se apropriar desse legado de lutas para preparar as próximas gerações, enfatizando que "conhecer nossa história é valorizar quem lutou antes de nós e preparar o futuro na defesa dos direitos, da democracia e do serviço público".
Aposentados e pensionistas: atenção aos prazos para ações judiciais
Na sequência, a assessora jurídica Josilma Saraiva apresentou um informe técnico de extrema urgência para aposentados e pensionistas do INSS e do Ministério da Saúde.
A advogada explicou a necessidade de ingressar com ações de paridade das gratificações de desempenho — GDASS, para o INSS, e GDAST ou GDPST, para o Ministério da Saúde — antes da prescrição definitiva dos prazos.
Para os servidores do INSS, o direito de acionar a Justiça expira em janeiro de 2027. Já para os vinculados ao Ministério da Saúde, o limite vai até agosto de 2027.
Diante desses prazos, o sindicato convoca sua base para uma busca ativa de colegas que se enquadrem nessas condições.
Formação sindical, participação e renovação da base
O encerramento das atividades foi conduzido por César Azevedo, o Cesinha, educador da Escola Centro-Oeste de Formação Sindical da CUT (ECO/CUT).
Resgatando os conceitos de Paulo Freire, Cesinha enfatizou que a teoria sindical separada da ação transforma-se em mero verbalismo, enquanto a prática sem teoria cai no ativismo vazio.
O palestrante conclamou a base a assumir o protagonismo das lutas, lembrando que a filiação formal não basta se não houver participação cotidiana e ativa nos territórios de trabalho e nas redes sociais.
Ao final, após os participantes compartilharem palavras de pertencimento e identidade, o grupo gravou um vídeo unificado, reforçando as bandeiras da entidade e selando o compromisso de continuidade das mobilizações para os anos desafiadores que se aproximam.
Da diretoria do sindicato participaram Heloiza Massanaro, Grete Tirloni, Carmem Paulino, Mauro Mota, Terezinha Aguiar e Wilma Alves de Almeida.
SINTFESP-GO/TO
É na luta que a gente se encontra!
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